Meninas levam comida, Meninos levam bebida: Libertando-nos dos condicionamentos do patriarcado
Escrito por Imprensa   


Mavesper Cy Ceridwen

Há alguns dias na lista de discussão da Abrawicca iniciou-se uma polêmica acerca do aviso de uma atividade aberta que seria realizada no Rio de Janeiro. Ao fim da msg, que convidava para debates e troca de opiniões, havia um pedido de que mulheres levassem comida e homens levassem bebidas para partilha e celebração final.

Sobre esse pedido divergiram algumas pessoas – inicialmente mulheres, que questionaram o pedido, criticando-o, pois, em seu entender, essa divisão de tarefas estaria de acordo com normas do patriarcado. Seria machista acreditar que mulheres precisam levar comida, que homens não são capazes de fazê-la, que homens podem ser mais comodistas porque é mais fácil levar as bebidas etc, etc, etc. Alguns até mesmo questionaram os diânicos que conduzem a Abrawicca – leia-se eu mesma e pessoas da TDB – porque seria absurdo nós, que deveríamos zelar pela independência feminina, nos dobrarmos a essa "regra patriarcal".
Muitos foram os argumentos contra e a favor, alguns até mesmo apaixonados e inflamados. Fiquei observando até que todos falassem, e agora exponho minha opinião.

Em primeiro lugar, cada Coordenação local da Abrawicca é livre para organizar suas atividades, desde os cursos, ritos públicos, rodas de discussão e estudo, etc até as confraternizações. Creio que cada Abrawicca organiza suas atividades de acordo com costumes comuns entre os pagãos locais.

Por exemplo: diferente do Rio e São Paulo, em que as celebrações são deslocadas para o final de semana, a Abrawicca DF celebra sempre nas datas exatas, assim, há ritos públicos em dias de semana. Justamente por isso abolimos esse lanche comunitário- todo mundo vai direto do trabalho, fica difícil providenciar lanches, então aqui nem haveria essa polêmica. Quem celebra o ritual doa a comida e bebida daquele rito, ou pessoas da orgnização levam alguma coisinha para partilhar com todos, custeada pela associação. Mas Rio e Sampa colocam esse aviso: "meninas levam comida, meninos levam bebidas". Nunca vi nada de mais nisso.
Diferente das mulheres que contestaram essa msg, não acho essa divisão de tarefas nem sexista, nem errada à luz do Poder do Ventre.

Há dois aspectos a considerar: se é preciso comida e bebida, é certo que haverá uma divisão de tarefas. E como ela será feita? Ao final da discussão surgiu um consenso do tipo se colocar assim: "todos levam comida e bebida ou todos levam comida OU bebida"... hueheuheuheu Acho que esse tipo de coisa só gera confusão e, certamente, haverá lanches com excesso de uma coisa e falta de outra. Dividir de alguma forma é preciso, é prudente e prático. SE não formos dividir por gênero, que outra característica usaríamos?
Seria razoável dizer: afro-descendentes levam comida, descendentes de europeus levam bebida e descendentes de orientais levam sushi? OU seria razoável dizer maiores de 30 levam comida, menores de 30 levam bebidas? Ou ainda: pessoas que pesam mais de 70 quilos levam bebidas, menos de 70 Kg levam comida??? Vcs não acham que seria ainda mais esquisito isso??? Acho a divisão por gêneros coerente, na medida em que normalmente o comparecimento de homens e mulheres em nossas atividades é bem equilibrado em número. Não vejo, assim, problema nisso por si só.

Minha segunda observação, e a mais importante do ponto de vista de uma Reconsagradora do Ventre, ou seja, alguém que dedica grande parte do seu sacerdócio à recuperação do Poder Feminino em cada mulher e recuperação do respeito dos homens por essas funções femininas: não vejo erro no "mulheres trazem comida", vejo erro sim em alguém se incomodar com isso...

Digo o seguinte: sinto ter que fazer a observação, mas escrava de padrões patriarcais é a mulher que se ofende por ter sido encarregada de providenciar a comida.

Historicamente, na divisão de trabalho pelos gêneros, a comida é atributo da mulher. Desde as cavernas, o homem caça, a mulher cozinha. Se vamos recuperar os verdadeiros poderes femininos, temos que aprender a não rejeitar o que é DIREITO da mulher: cuidar da alimentação, uma das atividades mais mágicas que qualquer bruxa pode fazer.

Vejam bem: não é lugar de mulher seja na cozinha. È que a cozinha é DOMÌNIO da mulher por direito de nascimento. Quando homens a ocupam, o devem fazer com profundíssima reverência ao Feminino e geralmente não há Chef famoso que não agradeça suas ancestrais pelo que aprenderam.

Um dos sinais mais claros que uma mulher é dona do seu Poder do Ventre e completamente liberta dos padrões do patriarcado é quando ela RESSACRALIZA AS FUNÇÕES TÍPICAS E TRADICIONAIS DO FEMININO, quando ela para de rejeitar coisas como fazer comida, bordar, tricotar, limpar casa, saber segredos de lavar bem e passar roupa. Uma bruxa livre não só AMA fazer essas coisas como reconhece nelas a própria Deusa agindo na conservação da casa e da família.

Muito diferente de nossas ancestrais submetidas ao patriarcado, que eram escravas dessas tarefas para terem valor e respeito, nós somos mais que as tarefas. Somos livre para fazê-las, e bem. E nos orgulhamos disso. Do mesmíssimo modo que ostentamos nossos diplomas e sucesso profissional.

Na época do inicio do feminismo, na década de 70, as mulheres que foram pioneiras e a quem admiramos por queimarem soutiens e nos liberarem, também caíram num erro: criaram suas filhas – eu sou uma delas, fui criança na década de 70 (mesmo que mamãe não fosse militante feminista, cresci nesse clima de "mulher precisa ter sucesso profissional e casar atrapalha") – ODIANDO E REJEITANDO as artes femininas. Embora isso seja compreensível em termos históricos, foi uma enorme perda! Que eu não daria hoje, que sei do valor dos trabalhos manuais das minhas ancestrais para conservar e manter meus poderes de bruxa, para ter de volta todas as peças de enxoval que minhas tias e avós faziam para mim e eu rejeitava!

Mulheres que recuperam seu Poder do Ventre e que são realmente conscientes dos poderes do Feminino e de suas Artes sagradas JAMAIS rejeitariam ser encarregadas da comida! Quem rejeita essas funções, ela sim, é a mulher ainda escravizada pelos ditames do patriarcado e com o ventre ferido e desempoderado...

É por isso que nos, diânicas, não achamos isso errado. Muito pelo contrário!

Um de meus maiores prazeres na vida é levantar de manhã, escolher o terno que meu marido vai vestir, a gravata, verificar se os sapatos estão engraxados, ver se está tudo ok. Não faço isso por obrigação, faço por prazer! Sirvo meu companheiro, minha filha, filho. E ensino minha filha que as mulheres são sim, mais responsáveis pela manutenção do bem estar doméstico que os homens, porque é seu DIREITO. Se um dia eu não quiser fazê-lo ou não puder, eles se viram. Mas se eu puder, quem faz questão de servi-los sou eu! E isso não me torna menos feminista (lembrando que defino feminista como alguém que busca IGUALDADE entre os gêneros), nem me diminui como mulher.

Amo tanto cozinhar que um dos meus sonhos hoje é fazer uma faculdade de gastronomia.

Assim, sinceramente, se eu estivesse ai na Abra RJ continuaria com a mesmíssima divisão de tarefas e mandaria quem reclamou fazer ou refazer uma Reconsagração do Ventre ou do Falo.

As coisas mudam muito depois e compreendermos o que é mesmo escravidão e o que é tarefa que se assume em plena liberdade, repletas de poder pessoal.

Que a Senhora do Oceano de Sangue nos abençoe a todos!